Sempre

© Pedro Portugal

Eu não tenho noção, Senhor Doutor, do que era namorar sob constante vigilância dos pais, no recato de palavras de circunstância partilhadas por todos os presentes, fazendo a todos virgens das coisas sentidas que se dizem quando vivemos em estado de paixão. E só tenho uma pálida ideia da reprovação que se geraria por beijos dados em locais públicos, como se fosse possível ter hora e local marcados para os dar, como um dever a cumprir. Nem me lembro dos tempos em que não se usava mini-saia e o simples despontar de um joelho numa saia fosse motivo de júbilo erótico ao som de "olha que coisa mais linda, mais cheia de graça". Já sou do tempo em que basta aos homens usar calções na praia, sem a camisola de alças e sempre me torrei ao sol em biquini ou a fazer topless.

E apenas porque mo disseram, sei que o Salazar mandou encerrar os sanitários do Largo da Anunciada para impedir um seu ministro de lá andar à cata de outros homens, já que na minha experiência de vida sempre foi habitual encontrar no meu leque de amigos alguns com orientação sexual diferente da minha pelo que nunca estranhei que se revelem na classe dos padeiros ou dos políticos, como qualquer pessoa deste país.

Lembro-me melhor, Senhor Doutor, das filas enormes para votar nas primeiras eleições, sem pensar que não era necessário ser chefe de família, ou homem, ou mulher com determinadas habilitações literárias e apenas me irritar o cretino do meu bilhete de identidade não apresentar os 18 anos que mo permitiriam fazer.

E recordo-me, claramente, de sair de um daqueles espectáculos de rua das noites de 24 de Abril, completamente abraçada àquele moço fininho como um espeto, com uma força motriz a impelir-nos que nos beijássemos a cada cinco metros de rua e de entrarmos no dia seguinte, esparramados em lençóis, numa amálgama das partes dos nossos corpos nús, cansados de tanto suar um sobre o outro como as marés a bater na rocha, como a chuva a escorrer das nuvens, como as plantas a romper da terra, guardando como senha do momento "25 de Abril Sempre".







(som gentilmente patrocinado por Luís Represas: Foi como foi)


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