Volúpia

Frida Kahlo, The Two Fridas, 1939,
óleo sobre tela, 67 x 67, Museo de Arte Moderno do México



Geralmente, visto-me para mim própria, Senhor Doutor. Para reconhecer no espelho que a gaja que lá está sou eu e não outra alma qualquer. Excepção feita para quando sabia que ele vinha à capital.

Nesses dias, após o duche amaciador, vestia-me com volúpia. Escolhia um conjunto púrpura de soutien com abertura frontal e tanga de fio dental, no deleite antecipado do momento em que as suas mãos tocariam essas peças para as expulsar de mim. Seleccionava umas meias de liga rendada no topo, de cor condizente com a restante indumentária e esticava-as delicamente perna acima para lhes sentir o acetinado. Frente ao espelho, experimentava várias camisolas de generoso mas não abusivo decote para eleger a que basicamente realçasse mais o volume das mamas. Envelopava a cintura numa saia facilmente descartável e finalmente, adoptava uns saltos que me dessem um confortável prazer de andar sem descurar a elevação das nádegas.

E sem colares ou pulseiras para desperdiçar preciosos minutos a retirá-los, vertia o perfume japonês atrás dos lóbulos das orelhas e no centro interior dos pulsos, na íntima satisfação que o seu nariz escorregaria por eles aspirando a fragância.

E com cada poro expirando sensualidade que trespassava a roupa, saía para a rua para o encontrar porque, Senhor Doutor, ao jeito do Graham Greene, há ceboladas que são de comer e chorar por mais!




(Frank Sinatra, I've got you under my skin)

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