Brincos de ignição


A culpa é das cerejas. Foi por as ter comido que o caso me saltou de uma gaveta da memória. Aquele par de olhos verdes coruscantes captaram-me a atenção. E cada dia mais difícil era esquecê-los já que eles se lembravam dos meus pratos predilectos e da minha antipatia por batatas fritas, trocando-as antecipadamente por outro acompanhamento, para além de terem memorizado todas as minhas alterações à ementa usual e me aconselharem as sobremesas acabadas de confeccionar ou as frutas mais frescas.

Com o passar do tempo, o tratamento por você passou a um tu cá, tu lá, sobretudo após a confidência de que havia sido embarcado, com longos meses no mar e um dia, no regresso a casa, a mulher optara por outro inquilino com uma profissão das nove às cinco. As nossas mãos começaram a cruzar-se assiduamente nos pires de azeitonas ou dos queijinhos e a tocarem-se, nos bordos das taças de sobremesa e nas asas das chávenas de café.

E quando chegou a época, pedi cerejas e ele trouxe uma cesta delas. Pegou em dois pares unidos pelo caule e pendurou-mas nas orelhas, feito espelho mágico a reflectir a mulher mais linda do seu universo. Segurou-me em ambas as mãos, beijou-as e articulou umas frases que me soaram a compromisso, pelo que esbocei um sorriso titubeante e lhe respondi que, como com qualquer motor, era suposto começar por fazer um test driving.

(Foto: © João Freitas, 2006, Fairy #5)

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