A conta


Até que foi emociante a época em que acumulei os três. Um mais velho, um da mesma idade e um mais novo. Afinal, feitas as contas, não foi nada que uma criteriosa gestão de tempo não resolvesse.

Fazia-me falta o mais velho para entre as baforadas de um cigarro, enquanto lhe encaracolava os pêlos púbicos, me deliciar com as histórias empolgantes que ele tão bem sabia narrar . Fazia-me falta o da minha geração para suar durante horas colada aos seus músculos e ossos numa tântrica fusão que me deixava rastos de saliva do lóbulo das orelhas ao dedo grande do pé. Fazia-me falta o jovem para saborear os apalpões desordenados na sala de cinema, os beijos densos de esterno contra esterno, de coxas contra coxas e mais qualquer coisinha, no meio de qualquer via pública e as mãos dadas sobre a mesa como se não existissem talheres.

Mas era um canseira os relatórios de actividades sobre os outros que a cada um tinha de fazer. Como se cada detalhe fosse imprescíndivel na tabela de cada um como um registo dos lances do adversário num jogo de xadrez. E caramba, se nenhum cumpria todos os requisitos, dei por terminado o período de experimentação e dediquei-me a uma aturada pesquisa de modelos que como os champôs já conseguissem ser três em um.

(Imagem: © François Benveniste, 2006, O tempo que passa)

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