Cristalização


Irritava-me solenemente que ele repetisse que me queria ver como eu tinha vindo ao mundo. Nem tanto pela falta de pêlos que qualquer depilação resolve mas mais pelas ganas que me dava de lhe aparecer à frente depois de despejar cabeça abaixo o saco de sangue que vinha com a galinha do supermercado e de lhe colocar a questão óbvia de como preferia que eu cortasse as mamas que desde o fim da infância me tinham crescido.

Ele exasperava com os meus resmungos e protestos contra as suas frases feitas tal qual roupa de pronto-a-vestir cómoda de usar, em vez de estar a matar a cabeça em provas de alfaiate. Encolerizava-o a importância que eu atribuia às palavras como se elas não fossem apenas pedras do jogo da comunicação mas barro moldável às nossas sensações de ocasião.

Assim e na diplomacia do salvo melhor opinião, para evitar uma sanguinolência pela casa fora e a trabalheira que seria limpá-la como o Pulp Fiction claramente mostra, sempre que ele repisava que me queria como vim ao mundo, eu desejava-lhe que ao contrário do anis, nunca se lhe escarchassem os espermatozóides.

(Foto © Paulo César, 2006, Greek statue)

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