Diz-lhe com flores


Antes que acabassem os "intas", aquela marca indelével de que não podemos ser jovens agricultores, resolvemos apostar numa mudança de vida. Amigos e colegas de trabalho de longa data, tínhamos em comum o estado de divorciados embora nos separasse a diferença dele ter o filho à sua guarda e a mim me caber com o meu apenas uma custódia de fins de semana. Pegámos em resmas de jornais e em barda também pesquisámos os anúncios de emprego on-line, decididos a avançar para as entrevistas de emprego.

No final de cada uma, com os rabos achatados das eternas cadeiras quentes de pano colorido, estrategicamente niveladas abaixo das cadeiras estofadas de couro e apoio de braços do entrevistador, conferíamos o sucedido a cada um, e invariavelmente lá vinha o guião de nos terem questionado a ambos o estado civil, mas em exclusivo para a gaja acrescentarem o rol sobre a existência de filhos e quantos, se pensava voltar a casar ou engravidar novamente. Até comecei a estranhar que não me perguntassem qual a periodicidade com que procurava encontrar-me com homens para fins sexuais, quanto tempo desperdiçava nessa actividade e de que modo é que isso influia na minha produtividade do dia seguinte.

Ele, por seu turno, ficava calado que nem um rato quanto às suas obrigações parentais, já que nem as supunham plausíveis, regozijando-se com a ironia interior de o imaginarem um homem chapa-cinco. Acabou por comentar que estranhava que eu não amarinhasse pelas paredes no decorrer das entrevistas e por isso me senti compelida a revelar-lhe que levava sempre na mala uma flor de pano, daquelas que parecem quase reais, para no final a deixar ao entrevistador, agradecendo o tempo e a atenção.

(Foto © Paulo Taborda,2006, k enne)

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