Tango e Vira


Apesar da hora tardia, estava um calor de ananazes como escreveria o Eça e o som do saxofone na drive do computador apenas o acentuava. Recostei-me mais na cadeira regulável e ajustei às orelhas os auscultadores sem fios. Regulei a posição da câmarazita, testando a imagem e sabendo-o do outro lado comecei a desapertar o soutien, após a tradicional queda das alças do mesmo. Desci as mãos até à tanga para a encostar à perna e fazer deslizar o médio pela minha pista.

Imóvel na sua cadeira ele sussurou-me que retirasse a string e me virasse. Que de pés no chão me apoiasse na cadeira. Que me ajoelhasse em cima da cadeira. Que alçasse o traseiro. Que exibisse as aberturas com ajuda digital. Que gemesse. Que falasse francês. E não parava de ditar posições numa voz ofegante, com a peculiaridade de todas me imobilizarem de costas para o monitor como um crente nos tempos em que as missas eram ditas em latim.

Aquela sanfona constante parecia a tortura do pingo de água de torneira e com a minha falta de jeito para caniche amestrada não foi tarde nem cedo para me virar para o meco e dar com ele na janelita, de mãos pregadas ao pilarete. Obedecer-lhe mais seria tão obsceno como ser palestiana na faixa de Gaza e ainda agradecer a penetração.





(Foto © João Luís Teixeira, 2006, Luxúria)

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