Em pontas


Não é que a comparação com um cavalo de corrida não tenha o seu quê de garboso mas apesar disso aquela gaja irrita-me em cada medição que me faz dos pés à cabeça, ao vasculhar as imperfeições da pele ou os pêlos não extirpados ou a brancura pepsodent. Já para não falar das suas averiguações sobre todos os pormenores do cair dos tecidos, para tentar adivinhar as marcas nas etiquetas escondidas, para decorar os modelos de sapatos e para repetir as mesmíssimas investigações nas restantes colegas.

Bem sei que neste nosso cantinho à beira-mar plantado o número de mulheres suplanta em muito o dos homens e todas sabemos de ginjeira que eles fazem as suas compras pelo que está exposto na montra e de imediato lhe estimule os neurónios que içam o guindaste pelo que estão criadas as condições propícias para o desenvolvimento do instinto da competição.

Se ao menos ela não se dedicasse àquelas prédicas sobre o comportamento oferecido das outras, junto de todas desde que não esteja presente a vítima do julgamento, talvez não me ficasse a sensação de ser um jogo de espelhos de feira em que para si reserva o único que não deforma.

Ainda pensei recomendar-lhe que visse o último filme do Almodovar mas corria o risco de lhe acabar com aquela diversão de croché e equilibrando-me nos saltos altos, sorrio ao passar por ela, empinando as nádegas na saia travada.

(Foto © Mariana Pereira, 2006, Feet of gold)

0 comentários: