Postal da nascida virgem


Vulcânica como as ilhas que a deram ao mundo, Natália de Oliveira Correia nasceu neste dia 13 de Setembro, há 83 anos atrás, em São Miguel.

Qualquer biografia dará conta dos pormenores do currículo literário desta poetisa de telúricas paixões que hoje tem o seu nome inscrito nas esquinas de uma rua de Lisboa, próxima do palco que foi o seu Botequim, na Graça, mas ela própria afirmava que «O erotismo, como ressumbração de uma vivência amorosa individual, está longe de caracterizar a obra desta poetisa. Todavia, no sentido lato de um universo erotizado, (...) é-lhe gradual o desenvolvimento da perspectiva erótica, (...) Esta evolução (...) resultando no comprazimento de se observar como força genesíaca, deslumbradamente actuante na cópula primordial que a terrena espelha».

Cosmocópula
I
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras
II
O corpo é praia a boca é a nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.

(Inédito de Natália Correia para Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica , sel.,prefácio e notas de Natália Correia, Lisboa: Antígona/Frenesi, 2000)


Adenda
Porque a Natália merece, o Bartolomeu dedicou-lhe nesta ocasião uma poesia:

Mulher que usou a palavra
com a força de expressão.
Tal como camponês que lavra
com a charrua o seu chão

Indómita e forte na luta
de olhar posto no mar
sincera, sensível,arguta
Apaixonada ao falar

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