Postal de Jorge de Sena no corredor dos dias


Aqui vão duas poesias de Jorge de Sena que nasceu lisboeta em 2 de Novembro de 1919 e se construiu como um engenheiro-escritor. Contudo, em coerência com a sua afirmação poética Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade, exilou-se a partir de 1959 no Brasil e depois, já cimentado como escritor-professor, fixou-se em 1965 nos Estados Unidos da América onde veio a falecer em 4 de Junho de 1978.



Conheço o sal...

Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.

Conheço o Sal... e Outros Poemas, 1974


X

Rígidos seios de redondas, brancas
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias;

torsos de finas, penungentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem
de hirsutas liras, longas e vazias

da crepitante música tangida,
húmida e tersa, na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila;

dedos e nádegas, e pernas, dentes.
Assim, no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.


As Evidências, 1955


(Imagem: O Baloiço, de Fragonard, tela de 1766, gentilmente patrocinada por aqui )

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