Terra de marinheiros

(Joana Vasconcelos, " A Ilha dos Amores", instalação; Foto Nuno Fox/DN)

Reconheço que o seu ar de marinheiro rufia me despertava o gosto pela aventura de o fazer atracar por mais de um dia e empenhei-me a decorar a minha barcaça com todos os chavões que fazem erguer o periscópio, ou seja, fartei-me de deixar cair coisas ao chão para desembaraçadamente lhe colocar o meu traseiro mesmo à altura dos olhos na perspectiva que mais o favorece, esmerei-me no uso permanente de vastos decotes que mostrassem o volume do peito mas sem o desnudar totalmente e pratiquei com denodo aquele truque da voz meiguinha com os olhos melados a condizer.

Esta âncora funcionou e assim submergimos várias vezes um no outro, cumprindo escrupulosamente todas as etapas de quem faz mergulho de profundidade, a descer e a subir lentamente, com os orgãos a latejar, como quem tem todo o tempo do mundo.

A chatice é que a previsibilidade das marés me começou a aborrecer e nada me pareceu melhor que atirar fora aquela rede dos desejos do outro em que nos embrulhamos quando queremos seduzir alguém e mostrar-me ao vivo e a cores. Comecei por sugerir concursos de rapidez a mudar pneus e passei a sair do duche em 5 minutos, a pingar pela casa fora e a atirar com o toalhão de banho para qualquer canto de chão, para além de activamente me empenhar em deixar sempre o tampo da sanita levantado apesar de este último recurso ser algo que ele nem notava. Depois, umas animadas tardes em que suplantava o número de bejecas por ele bebidas, acompanhadas a tremoços e edificantes comentários brejeiros sobre o material circulante fizeram o favor de me descredibilizar como elemento do sexo feminino e o marujo lá abalou nas certezas desta terra de marinheiros.

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