Cronologia do crescimento

( Foto © Carlos Meneses, 2006, mimos)

Foi um reboliço naquela escola quando se soube que ia aparecer um professor novo. A notícia espalhou-se como chama num pau de fósforo e todas as conjecturas foram lançadas, desde fazer dele um velho gordo a precisar de cadeiras reforçadas até imaginá-lo um príncipe, a ombrear com o Art Sullivan do momento.

Ele chegou com uma pronúncia do norte, moreno, alto, uns reluzentes olhos da cor do mel e um sorriso largo, a tentar esconder nos seus 23 anos a insegurança de começar a dar aulas numa escola de gaiatas de 11 e 12 anos que não paravam de o olhar de todos os ângulos possíveis ou então embasbacavam pregadas a um qualquer ponto do seu corpo, mais uma meia de dúzia de rapazes acanhados por frequentarem uma escola que havia sido só de meninas.

Ensinava História sem pretender que memorizássemos datas mas antes que procurássemos perceber porque aconteciam as coisas. E nos intervalos comentava connosco o quotidiano daqueles dias rápidos de 1975 e 1976, como se fôssemos crescidas e a nossa opinião importasse. Dinamizou a biblioteca com um sistema de empréstimo para casa e não foi tarde nem cedo para me oferecer para ajudar e obviamente, conseguir mais tempo para conversar com ele, sobre os livros, a história e a política actual, notando como as suas mãos esguias e suaves ao toque acariciavam delicadamente as capas e as lombadas.

Um dia ele chegou com dois livros, sobre a idade média em Portugal e a revolução de 1383-85, sem embrulho nem fita mas com a primeira página de cada um preenchida com uma enorme dedicatória. Corei a titubear um obrigada e na fracção de segundos seguintes recompus-me e saltei a agarrar-lhe o pescoço com ambas as mãos para lhe dar um beijo em cada face. Corou então ele mais os onze anos que cronologicamente nos separavam embora os seus olhos luzissem. E a partir desse dia abandonei os cortes arrapazados para deixar crescer os cabelos e passei a vestir saias.

( Porque hoje é o Dia Mundial do Professor)

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