Aluguer de longa duração


Enfiei os coturnos nos pés para não estarem sempre frios nestes dias em que a temperatura desce como uma cortina de nevoeiro mas não era por isso que ia voltar atrás para recuperar aquele aquecedor de pés.

Esparramei-me no sofá com o rolo do apoio de braços a servir de almofada e os olhos em voo planado entre o tecto e o televisor, sintonizada nas imagens dos momentos malvados que o canal da memória selectiva pinta de cores mais carregadas. Os repetidos resmungos por cumprir tarefas domésticas que o impediam de se alapar sossegadamente na poltrona em amena cavaqueira com um uisquito e duas pedras de gelo. As perguntas insistentes sobre o meu saldo bancário, apenas para saber, como se não o movesse a pele de accionista a avaliar a liquidez das empresas. O quéquiçotinteressa como o FAQ para as suas vivências do quotidiano.

Partilhar o seu corpo já era um pau e comungarmos no gosto de dormir despidos, um extra que por acaso vinha incluído na campanha daquele modelo.

Eu queria muito pouco, apenas um aluguer de longa duração com igual contributo de ambas as partes, só que esse pouco era muito para aquela cilindrada.


(Foto © Bárbara Angel, 2006, Sem posar)

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