Calçadas


Ia eu em passo lesto ali pela Cinco de Outubro fora que já estava atrasadíssima quando um dos meus queridos saltinhos se enfiou justamente no espaço entre duas pedritas calcárias e a ponta do respectivo pé aterrou descalça no empedrado envolta apenas na meia finíssima. Dobrei-me para sacar o sapato daquela armadilha e descobrir o salto descascado até ao sabugo e a capa esfarelada. Maldisse a minha sorte mais a porra do homem que tinha tido a ideia de pôr os presos do Castelo a fazer rendilhados com pedras para calcetar as ruas, mais os sacanas dos ditadores da moda que não nasceram portugueses e decretaram os saltos agulha como supremo requinte de alongamento das pernas na beleza feminina, que isto não se ganha para saltos novos e capas arrancadas.

Lembrei-me logo da cara alegre do sapateiro que ainda resiste num rés-do-chão daquela zona e me saúda sempre com um então menina, lá foram mais uns , não é?... e que se não fosse a sua idade indisfarçável na pele do pescoço ainda se poderia supor que estava ali para romper meias solas, tantas as vezes que era visitado pela maioria do material feminino circulante na área.

Mas como para grandes males, grandes remédios, decidi abandonar os pedestais, reservando-lhe apenas o lugar de produto lascivo para uso em soalhos caseiros e lá manquei até à sapataria mais próxima para comprar uns sapatos rasteiros que cumpram a função de me proteger os pés das agressões do solo.


(Foto © JET, 2006, Pavement cracks)

0 comentários: