Água mole


Chovia que São Pedro a dava porque como é sabido, para além de ter as chaves do céu tem a incumbência de redistribuir os excedentes. Por entre as bátegas que o vento fazia o favor de distribuir uniformemente pelo meu corpinho, o chapéu de chuva era apenas uma varinha na minha mão para não me pesar a consciência de não estar a fazer nada para me proteger.

Felizmente a porta de casa era já ali e chave rodada na porta sacudi a cabeleira, com os restos mortais do guarda-chuva ainda a pingarem-me as botas. Elevador acima, a humidade das roupas penetrava-me insidiosamente como os tentáculos de um bicho e mal cheguei, ala que se faz tarde a ligar o esquentador para um banho quente.

Atirei rapidamente com todas as roupas para o chão da casa de banho e coloquei-me imóvel debaixo do duche deixando escorrer por mim toda aquela mornidão reconfortante. Retirei o acessório do suporte e comecei a aspergir os cabelos e o pescoço como fossem os fios de água dedos a afagar-me. Passei os borrifos para o peito e costas, barriga e nádegas até chegar às pernas, abrindo-as depois para dirigir o jacto e ali ficar a borboletar em círculos enquanto os mamilos entumeciam e a água ganhava corpo roliço que se grudava a mim como se nela palpitassem veias.

O cérebro fez-me o favor de exibir nessa sessão o "Eu te amo" do Arnaldo Jabor e o duche foi puro prazer.

(Foto © Dragonfly, 2006,
Aquilas Corpus)

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