Articulação


Só de subir as escadas rolantes com aquela catrefa de sacos fiquei esbaforida. Ou então era a quantidade de gente no centro comercial que me fazia falta de ar. Larguei logo a gabardina no balcão de limpeza a seco e guardei a senha para levantar no dia seguinte. Arremeti para a loja de pequenos arranjos e lá deixei as duas calças para pôr fecho novo, prontas daí a duas horas. E passei para os arranjos rápidos de calçado em 1 hora onde me aliviei dos dois pares de botas.

Dei a volta pelos balcões de café mas não havia uma puta de uma mesa livre, umazinha para amostra e tive saudades dos tempos em que os cafés não eram concessões todas iguais e tinham cadeiras para os clientes descansarem e contemplarem a paisagem. Decidi não tomar a bica de pé como num mijatório que o limpo e higiénico de acordo com as normas europeias não o tirava da categoria de urinol e abalei para casa.

Mal meti a chave à porta percebi que ele já chegara e as suas mãos a desfalecerem-me na anca logo no beijo de entrada insinuavam uma predisposição imediata para acrobacias apoiadas no móvel mais próximo. Só que a minha pele amargurada não reagia, como se não tomasse banho há três quinze dias e quase sentia os seios a esmorecerem e os pêlos a multiplicarem-se perversamente nas axilas e nas pernas, resultando na falta do trivial encosto de ancas e prospecção de nádegas que o fez questionar-me se era chegado o dia de finalmente o surpreender com dores de cabeça, ao que retorqui que eram as prestações apressadas da vida que me impediam de mover as articulações.


(Foto © Octávio Alcântara, 2005, Faixas)

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