Envolvimento


O meu bisavô era Carbonário e os seus filhos desde o momento em que os neurónios começam a gravar que escutaram as invectivas dele contra o clero e os reis proferidas na horas das refeições e assistiram aos festejos da implantação da República que como ele dizia, até trouxe uma universidade ali para a cidade do Porto.

Aquele que veio a ser meu avô, mal passou a fasquia dos dezoito anos começou a catrapiscar uma rapariga, esperando-a à porta da oficina das filigranas de prata. Os seus vestidos azuis escuros adelgaçavam e realçavam-lhe as formas. E o seu carrapito enrolado na base da cabeça deixava adivinhar que assim se domavam uns longos cabelos revoltos que lhe deviam chegar aos mamilos.

Mal ela lhe dava as mãos para o cumprimentar ele beijava-lhes os lábios de forma mais prolongada que a decência impunha, quase em risco de fazer tombar o seu chapéu de palhinha com fita preta, a suprema vaidade que comprara com o dinheiro ganho na oficina de pintura de anúncios. E enquanto a acompanhava até casa gabava-lhe os reflexos no cabelo e o bom gosto no cortes dos vestidos, contava-lhe da sua dedicação à República pelos homens livres que criava tal como ouvira de seu pai e prometia ensiná-la a ler e a escrever melhor, que ela só tinha a 2ª classe e quem sabe, talvez até a aprender esperanto.

E ela que nunca se fiou na Virgem, quis agarrar aquele homem com unhas e dentes e quando um dia aprazaram continuar as explicações antes na casa de um primo dele, ela sumiu-se para um quarto mal lá chegaram para voltar depois à sala de cabelos soltos, seios nús, enrolada numa bandeira verde e vermelha presa à cintura, onde estavam debruadas uma esfera armilar dourada sobre fundo azul e uma estrela de cinco pontas prateada.

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