Fodida

(Foto © Maria Ivone, 2006, Descalça)

Estava fodida e tão completamente que nem força tinha para articular uma palavrinha que fosse. O maldito do rabo colara-se à cadeira e aquela reunião era um filme mudo daqueles que se adivinha facilmente o entrecho da história. Nos meus ouvidos soavam nove milhões de bicicletas e eu deslizava do norte de Portugal até à ponta de Sagres com o seu corpo a pairar sobre o meu como uma sombra até umas ervas altas me travarem e ele tombar sobre mim, espetando-se os seus dezoito centímetros que eu não faço a coisa por menos, directamente na grande área.

O bichano que me segue para todo o lado, apitando e vibrando, dera-me a notícia que ou almoçava hoje ou ele partiria nas gloriosas tradições da quadra. E eu ali amarrada a um conciliábulo de sexo dos anjos a fazer de corpo presente e a provar a mim própria que o trabalho pode ser prejudicial ao nosso bem estar e prazer.

Não fosse a minha capacidade para me abstrair dos lugares onde o meu corpo fica cativo e não desfrutaria daquele enlace na relva que ao segundo tempo me fazia rastejar sobre o seu corpo e erguer-me para catapultar os seios para o cesto da sua boca. De modo que quando entraram as sandes que iam servir de almoço, devorei logo uma em duas abocanhadelas perante os olhares de soslaio dos colegas que caramba, não entenderam que eu precisava de retemperar forças.


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