Tabu


Entre as garfadas de farinheira e cenouras, os risos fluíam pelo tinto e pelos ódios de estimação comuns que assim destilados ao almoço limpavam o estômago melhor que um laxante. Os seus olhos azuis contrastavam com o verde da couve portuguesa a embrulhar a morcela e sorriam matreiros, francos e sem jeitos de circunstância e naquela ocasião até os seus actuais cabelos grisalhos acenavam que outrora haviam sido dourados e encaracolados.

Devia ser também aquela abertura juvenil de tudo falar sem medir consequências que o impedia de apresentar aquela barriga que atesta a meia-idade ou o facto de ter constítuido família e entre o feijão, o arroz, as carnes de porco e de vaca e a última partida ao chefe, referiu que a mulher estava adoentada. Entaramelou-se-me um bocado de orelha entre o esófago e a nostalgia da cumplicidade gemelar dos casais sem filhos e, quando recuperei, reparei que a camisa que ele vestia, fresco e leve como habitualmente, não estava engomada.

E por mais que desejasse comunicar com ele por todos os neurónios, até ao uso compulsivo dos poros da pele, senti que sucumbia à invasão do tabu de não quebrar um incesto tão conseguido.


(Foto © João Freitas, 2006, Bathroom #09)

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