Carreiro


No bar desaguava toda a gente daquele edifício monstruoso mais os cumprimentos de circunstância do tás bem? tás aonde agora? xau fica bem, cronometrados ao ritmo da bicha de pré-pagamento. Como me baralhava sempre com as respostas decoradas passei a abanar a cabeça e a sorrir que era uma resposta adequada a quem nada queria saber.

Mas aquele foi um dia de percalços e com a bica na mão, quando me virei do balcão para a sala, bati com o pires no peito do cliente seguinte que estava logo atrás de mim e despejei-lhe o café pela roupa abaixo. Balbuciei mil desculpas olhando os cacos da chávena e quando encarei aquele que supunha irritado, ele replicou-me que com tantas manchinhas de café bastava que lhas recortasse pelo picotado para ficar como novo. Tão estimulantes palavras levaram-me a ripostar que se era essa a punição estava disposta a rasgar-lhe a roupa todinha já ali. Ele alegou que as janelas abertas o podiam constipar para já não falar das correntes de olhares que se faziam sentir. Gargalhei e acercei-me dele para lhe pregar dois beijinhos à francesa porque eu não alinho em merdas de tias só de um beijo e esticadito, não vá esse breve toque da pele ser demasiada intimidade e apresentei-me. Ele replicou que se chamava Zé e alvitrou que podíamos ir montar o presépio para o café da frente que tinha um bafo de ar condicionado muito acolhedor.

E eu acedi que até parecia presente natalício encontrar um gajo com vontade de partilhar algo do que é seu.

(Foto © Bruno Coelho Sorreluz, 2006, Amor a alta velocidade...)

0 comentários: