Com paixão

A verdade é que entrámos na Idade da Punheta Assistida: do homem-queca e da Mulher-vazadouro. Esfregam-se um no outro, sendo o outro uma mera prótese masturbativa conveniente.
Dragoscópio


Ele passou a calar-se mais e a aconchegar-se na leitura das revistas semanais, como se eu não soubesse que passava os dias a punir-se por não conseguir ter piada e dizer coisas interessantes a toda a hora, escalavrando as suas paredes interiores até a derrocada o adormecer.

E como gente para não partilhar tenho eu muita, agarrei-o pelos colarinhos que não tinha na camisola e forçando a colagem dos narizes como nos beijos esquimós disse-lhe que não precisava do seu retrato mas dele. Das suas gordurinhas para me aquecer os pés nestes dias que vão tão frios e do sal na sua pele quando o lambia como uma margarita de aperitivo ao estimulante prazer animal de nos deixarmos ir . Do seu amontoado de água proteica e vísceras e ossos para comprimir contra os meus e ter a certeza palpável que possuíamos orelhas para dar um ao outro e um horário nobre para alguns torneios verbais tal e qual como quem carrega no botão da consola para disparar mais rápido.

Amar-te com o coração é uma miudeza e eu quero roer-te os ossos todos e devorar-te a mioleira para fazer de ti o meu retiro carnal. É um pacote como os circuitos turísticos, os serviços multimédia por cabo ou as contas no banco, pelo que nada me rala o gentil pneu a despontar da tua barriguita ou sequer os gases que às vezes te saiem de mansinho pelo escoadouro do fundo depois de uma animada refrega que fronteiras são as que deixamos crescer dentro de nós.


(Foto © Ivone Peoples, 2006, Doce Loucura)

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