Gatos



Os gatos são uma das minhas paixões por grosso, muito graças aquela independência que dá ternura apenas por a querer mesmo dar e palavra puxa palavra, acabei por falar dos Gato Fedorento. Naquela amena cavaqueira até lhe confessei a extrema sensualidade que o quarteto me despertava e embalada comecei a descrever. Que ao Ricardo tão alto me dava ganas de lhe saltar para o pescoço e fazer dele baloiço. Que ao Miguel e aos seus caracóis pouco domados me apetecia mesmo era desgrenhá-lo todo e lamber-lhe o lóbulo das orelhas até lhe provocar o riso por cócegas de prazer. Que com o Zé, com o diabo no corpo em cada movimento, queria era dançar um tango que terminasse de forma arrebatadora com ele a encostar-me as costas ao tampo de uma mesa, gotejando suor no meu colo e obrigando-me a exibir a liga vermelha na perna ao cruzá-las no seu dorso. E que ao Tiago ternurento queria encaixá-lo numa poltrona fofinha para lhe beijar devagarinho cada milímetro de pele até os seus sussurros indiciarem que podia fazer dele meu assento.

Reparei na sua fisionomia circunspecta após tanto elogio a outros gajos mas fez-se de mula politicamente correcta que nem repara nos concorrentes e alinhavou o argumento de que agora eles eram muitos comerciais, que quando imitavam gajos que pareciam mesmo o vizinho do lado ou o chato lá do escritório é que era. Ou quando vinham com o gajo das berças ou o pintas do gamanço, isso é que era. Agora estarem nesta de gozar com o que passa em cada semana com gente que conhecemos, da televisão mas que conhecemos, é que já não tem piada que até parece que se pode fazer humor com tudo e vai na volta, qualquer dia ainda me toca a mim.

Peguei-lhe na mão e enquanto a afagava garanti-lhe que estava impoluto. Aliás, até lembrei que virtuosamente, todos os dias, ele levava o saco do lixo no carro, durante vinte metros e depois o despejava no contentor, antes de prosseguir a marcha. Que andar a pé e depois pegar no carro, seria ridículo.


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