O futuro


O marmelo tinha vinte e pouco anos mas vociferava para o comensal da frente, segurança de profissão como ele, que a honra é que é o ponto e que isso é que não se pode abandonar. Em decibéis largos, ele tinha sido abandonado pela mulher com quem vivia há bastantes meses que directamente lhe comunicara a coabitação com outro. E infernizava-o o facto de ter sido traído que ela fizera questão de lhe referir que já tinha estado com o outro, logo a ele que considerava que a honra é que é o ponto, que até parece que ser monogâmico é estranho. Sim, que ele era como o seu paizinho que nunca traíra a sua mãe que ele bem o sabia. Já a ela, ele nunca lhe perdoaria ter-se metido na cama com outro homem que não o seu paizinho mesmo que ela pedisse desculpa e lhe recordasse que o pai lhe batia como ele vira tantas vezes e que não o podia abandonar a ele e à irmã mas que uma mulher não era de ferro e tinha de ter alguma alegria na vida.

O casaco do uniforme militarizado estava nas costas da cadeira e ele cofiava o cabelinho de um milímetro de altura enquanto desfiava o rosário de ter de lhe tocar a ele uma coisa daquelas, a ele que nunca gostara de pretos desde os tempos da escola da Damaia e teve logo de ir meter-se com uma brasileira. Branca, claro mas brasileira que só porque encontra um gajo mais giro o deixa logo apeado, a ele um defensor da monogamia quanto mais não seja por causa das doenças. Isto está que não se pode e nem sei como será no futuro.

Levou a mão à face para conferir a pele escanhoada, puxou de um cigarro e virou-se directamente para a minha bica lhe ler o futuro, quiçá nas borras e lá tive de responder que pelo que ouvira, o futuro só podia ser como um penso higiénico, branquinho e absorvente mas pelo meu ponto tão cheio de coisas putrefactas e fétidas que o mais ecológico seria reciclá-lo.


(Foto © Luís Lobo Henriques, 2006, La musique et moi)



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