Olha a Judite com hagá

Judith Teixeira nasceu em Viseu no ano de 1880, em dia que não consegui apurar qual fosse e faleceu na cidade de Lisboa no dia 17 de Maio de 1959. Começou a publicar aos 42 anos de idade e assim, de 1922 a 1926, foram editados os seus três livros de poesia - Decadência, Castelo de Sombras e Nua - sendo que em 1927, ainda saiu um livro de novelas seu.

Esta poetisa decadentista e modernista foi também directora da revista Europa e viu parte da sua obra literária proibida por ser considerada atentória dos valores consensualmente aceites pela sociedade. Talvez daí a dificuldade que hoje ainda se nos depara ao procurar elementos sobre ela, embora exista um blog- o Evropa - a ela dedicado.

Por isso, os dois poemas dela aqui postados abordam as causas pelas quais a excluíram: a morfina que ela considerava a sua amante e as mulheres que amava.


A minha amante

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!…
Eles sabem lá o que há de sublime
Nos meus sonhos de prazer…
De madrugada, logo ao despertar,
Há quem me tenha ouvido gritar
Pelo teu nome…

Dizem —e eu não protesto—
Que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
Para te esquecer…
E que de noite pelos corredores
Quando vou passando para te ir buscar,
Levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo—
Não entendem deste luar de beijos…
—Há quem lhe chame a tara perversa,
Dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal—
O meu castigo…
E eu em sombras alheio-me dispersa…

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo…
Que és tu que doiras ainda,
O meu castelo em ruína…
Que fazes da hora má, a hora linda
Dos meus sonhos voluptuosos—
Não faltes aos meus apelos dolorosos
—Adormenta esta dor que me domina!


Junho - Poente, 1922





A Estátua


O teu corpo branco e esguio
Prendeu todo o meu sentido…
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido…

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei…

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados


Fevereiro - Noite luarenta, 1922

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