Vocações

(a propósito disto)



Em pequena, aí pelos 8 ou 9 anos, queria ser freira. Assim como assim, não tencionava ter filhos e o exotismo das missões em África, naquilo que me parecia ser construir uma sociedade a partir de muito pouco, chamava por mim. Suponho que o facto de todos os Natais ser a escolhida para fazer de Nossa Senhora no presépio vivo do que era uma espécie de ATL da época deve ter contribuído para a ideia, mesmo detestando vivamente a auréola que me incomodava na cabeça.

A ideia começou a dar para o torto quando o padre que me confessava começou a brindar-me sempre com 10 Pai-Nossos e 30 Avé-Marias para rezar. O homem perguntava-me directamente se eu tinha namorado e eu que não estava ali para mentir, afiançava-lhe que sim. Ele insistia para saber o que fazíamos e eu, claro que lhe respondia que dávamos beijinhos na boca que era uma coisa, como até tinha lido na Enciclopédia da Vida Sexual, no volume para a minha idade, que era natural. E na volta, lá vinha aquela enorme penitência como se eu tivesse feito alguma coisa de mal.

Essa minha vocação prematura ficou ainda mais arredada quando um dos meus pares de avós se tornaram protestantes evangélicos e me levaram a visitar a sua igreja que era clara e luminosa e onde para meu espanto as mulheres podiam ser padres e ter tanta autoridade como os homens, isto já para não falar que se podiam casar e não atribuíam penitências que cada um se confessava sem intermediários. Qual freira, qual carapuça que passei a querer ser padre, para falar e cantar para uma plateia.

Só que somando a experiência da auréola com a vontade de me dar aos outros, mais a vantagem anunciada de poder estar na pele de muitos, o resultado era que só podia ir para o palco e ser actriz.








(imagem que se atribui a quem provar pertencer-lhe e som gentilmente patrocinado por JornalismoPortoRadio)

0 comentários: