Agulha em palheiro


Ambos partilhávamos o gosto por pilas e os seus avisados conselhos sempre me foram mais úteis que toda a bibliografia e filmografia à face da terra e essa era razão suficiente para naquela noite irmos risonhos beber mais uns copos e dançar.

Só que ele chegou lá aflitinho e com um sorriso cúmplice para aquele menino traquina que ia espreitar o frigorífico fiquei à sua espera no balcão com um copinho facetado e duas pedras de gelo. Reparei que um moreno altaneiro me fixava tão intensamente que cheguei a alvitrar a hipótese de ter a braguilha aberta o que não era, de todo em todo, verdade.

Pé ante pé acercou-se a mim e vá de perguntar-me se eu não me lembrava dele e eu pois que não, abanei a cabeça. Mas ele começou a eriçar o som do seu aparelho bocal para crescer na insistência de que agora era fácil fazer de conta que não o conhecia, pois claro que já não sabia de nadinha e por mais que eu replicasse que morenas baixinhas há neste país às dúzias bem como milhares de caras semelhantes à minha, ele não desistia de reafirmar que se recordava de tudo muito bem e citar inúmeros locais que me deram a oportunidade de lhe confirmar que nunca o tinha visto nem mais gordo nem mais magro. Ele não queria dar o braço a torcer mas a chegada do meu amigo com o seu ar másculo de pêlos salientes e umas fartas sobrancelhas fizeram-no arredar mais que qualquer palavra.

Gargalhei da minha sorte por se revelar ilusória a convicção de que naquele bar mais frequentado por homossexuais teria sopas e descanso.


(Foto © J.P. Sousa, 2006, Dangerous Man)

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