Serviço Cívico



Depois de me ler, aquele desgraçado desditoso e infeliz agoirento que só uma quádrupla adjectivação repetitiva da mesma ideia me aplaca o ímpeto de contraditório, acusou-me de graves indícios de incitamento à desordem pública por defesa do desejo e da liberdade individual, bem como do desrespeito das normas de ausência de transparência que, de per si e in strictu sensu, sustentam o edifício moral em que assenta o modus operandi de milhões de portugueses e quiçá, até europeus.

Folheando o meu cadastro e salvo uns laivos judaico-cristãos de fazer elipses nas enrabadelas, o discorrer pela fidelidade e o seu oposto, levando de caminho a homossexualidade ou a heterossexualidade, o incesto ou o aborto, insistindo no desejo ou na falta dele como quem bebe um copo de água a acompanhar a bica em qualquer sítio público, até que concordava com a matéria de facto apresentada e destarte, sugeri juntar aos autos uma coima que me obrigasse a um comportamento social consentâneo com o da maioria. Assim como os padres obrigados ao voto de celibato dão cursos aos noivos eu propunha-me fazer o serviço cívico de dar aulas sobre a castidade.


(Foto © João Freitas, 2005, 03Cris #01)


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