O mito das batatas fritas

(Imagem © Julian Murphy)

Ela nem queria acreditar que eu ia trocar o bife suculento e com batatas fritas da Portugália por uma açorda de gambas. Desde a faculdade que não convivíamos assiduamente e nesses tempos de cantina era certo o empadão no dia a seguir ao da carne assada, tal e qual como os pastéis de bacalhau depois do dito com grão.

Ela casara apesar de se lamentar de pagar mais impostos por isso mas gabava a festa com direito a igreja florida e tudo o mais numa quinta própria para este tipo de mercado e falava empolgada do casalinho que já tinha.

Claro que queria saber de mim e lá tive de puxar do telemóvel para lhe mostrar uma fotografia que ela comentou aliviada que até que enfim eu escolhera uns ombros largos, uma cara simétrica e uma atraente altura ou mais simplesmente, um gajo mesmo apetitoso que sempre a arrepiara a minha atracção por fuinhas ou gordos com o denominador comum de serem palavrosos e irónicos. Contra-argumentei que não escolhera um garanhão e que só reparava nos dentes quando ele se ria e até extravasei que se lixasse o seu património genético nessa matéria embora com dificuldade ela me acreditasse perante a visão de um exemplar consensualmente aceite como bonito. Esclareci que o admirava como agente cobridor pelos compassos tão acertados aos meus como dançarinos profissionais mas não tencionava ser mãe dos seus filhos o que despertou nela a necessidade imediata de me repetir a prédica da mulher incompleta sem essa experiência como se o destino fosse um conjunto de normas para cumprir .

Foi neste passo que me lembrei da matemática e fazendo ali umas contas na toalha de papel avaliei que subtraído o tempo de cópula e de sono sobrava muito mais tempo que sem palavras e empatia de ideias engendravam uma relação tão monótona como um micro-ondas em que o prato gira e torna a girar apenas porque para isso foi programado.


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