Vinte palavras apenas



Uma mulher tão desempoeirada em casa, na fábrica e por todo o lado e esquecera-se de um gesto. Da prosa escrita em papel a comunicar a situação mal tivera a confirmação.

Em fragmentos revia a torrente de murmúrios entre as coxas, naquela luta dócil de risos na boca e paixão a alagar o chão que a deve ter gerado. Os traços dessas tentativas sucediam-se alegremente por todo o canto da casa desde a mesa da cozinha ao lavatório da casa de banho, sem esquecer o escurinho da dispensa porque era suposto engravidar e alardear o primeiro neto de ambas as famílias.

E agora frente à frieza daquele homem, com a preeminência que lhe assiste de maximizar os seus proveitos económicos e lhe estende aquele íman de olhos com umas vinte palavras a que chamam carta de despedimento, sente o inverno a penetrar-lhe os ossos e as veias tornando-a impotente para qualquer movimento.

Não pensara que o sangue que alimenta a matéria dentro de si era passível de castigos e punições, apenas por o fazer mas agora sabe que as injustiças esmagam a esperança de vida.



(Este texto é o resultado de um desafio do Finurias)

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