Absurdia (3) - O muro


Fazia colecção de cromos de jogadores de futebol como os meus amigos e vizinhos com quem gastava as tardes na brincadeira, ora na casa de uns, ora na casa de outros. E em cada manhã do ano lectivo lá íamos todos juntos a caminho da escola a jogar iô-iô ou a bater as duas bolas barulhentas penduradas numa armação plástica como se fora uma balança. Separávamos-nos à porta da escola que a minha batinha branca entrava por um portão e as deles por outro.

Mas na hora do intervalo acenávamos uns aos outros no recreio, separados por um murozito de tijolo sem pintura nem acabamento. Para justificar aquela passarela alguns rapazes empoleiravam-se nela e exibiam as suas pilinhas no manto levantado das batas e recitando as asneiras já aprendidas mesmo sem cativar os gritinhos das moças que era um espectáculo que só causava espanto no primeiro dia. Do lado das raparigas tinham ficado as árvores para empoleirarmos as nossas saias e os obrigar a esticar o pescoço quase à beira do torcicolo para divisarem a cor das cuecas usadas quando o bom tempo afastava os collants grossos de lã.

À hora da saída voltávamos a juntar-nos, esquecidos das minudências dos pipis e das pilas, para o regresso à casinha dos pais que éramos filhos de casais unidos pelos sagrados laços do matrimónio católico para todo o sempre, tal como na Branca de Neve e na Gata Borralheira.

(imagem gentilmente enviada por JP)



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