A espera


Trigo limpo, farinha amparo que em cada manhã tinha de esperar mais de meia hora por ele.

Apesar do som nítido do duche a correr o seu banho era uma sauna de vinte minutos, upa upa, a que se seguia um ritual de pentear e secar escrupulosamente o cabelo daquele Sansão que assim recarregava a sua energia diária. E quando eu já vestida e de pequeno-almoço devorado fumava um cigarro à janela, ouvia abrir e fechar cómodas e armários em busca da roupa não escolhida na noite anterior para vitoriosamente se decidir pela mais semelhante em cores e padrões às de todos os outros dias. Depois era a busca das chaves pousadas em qualquer sítio recôndito da geografia do apartamento e a lufa lufa de meter na pasta mais uns papéis que quase iam ficando esquecidos. Fazia uma última passagem pelo espelho da casa de banho para se assegurar da conformidade da sua imagem e com um suspiro de cansaço pegava na mala e declarava-se pronto.

Para não me atrasar mais escolhi um regresso do final da tarde para lhe elogiar o seu lado feminino diariamente exposto sem preconceitos se bem que o apreciaria muito mais se não fosse tão parecido com o mito de que as mulheres demoram um tempão a arranjar-se.


(Foto © Paulo Valente/A.Z., 2006, Alone with my doll 5)


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