Na banheira



Como era um leitor compulsivo comprei-lhe um porta-revistas a condizer com a cor dos azulejos da casa de banho para manter a harmonia estética e lhe garantir horas de prazer sem precisar de se erguer. Só que como descobri que a máquina de secar desconjunta os livros vou ter de repensar este adereço.

A história conta-se em meia dúzia de linhas. Depois de introduzir o porta-revistas junto à sanita, chego a casa e dou com ele imerso num banho de espuma só com a cabecinha de fora e as pupilas compenetradas num livro aberto nas mãozinhas feitas estante. Enquanto aliviava a bexiga começámos a falar sobre o enredo do livro e quando já devia ter passado uma meia hora pareceu-me mais relaxante continuar a conversa dentro da mornidão daquela água de modo que atirei com a roupa e ala moça que se faz tarde. A culpa foi dos meus pés que enquanto falávamos não paravam quietos em insistentes festinhas no animal de estimação, o que levou os meus mamilos a sobressaírem da água, o que conjugado com o afluxo de sangue ao bichano o fez precipitar-se sobre mim e num ai foi livro de lombada mole ao fundo, espalmado entre as pernas de ambos.

O livro foi borda fora mas não íamos desperdiçar aquele banho de cultura e de incentivo à leitura partilhada a ponto de o instituirmos desde então como aperitivo antes do jantar. Só que ainda me constrange peregrinarmos por lojas de bebé a remexer nas prateleiras dos livros plásticos de banho e a deixar atónitas as atenciosas empregadas sempre por perto na nossa discussão se já lemos aquele ou não.

(imagem gentilmente enviada por Fábula)

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