Alma de sapato

© Gil Elvgren, 1962, Weighty Problem (Starting at the Bottom)


Com os seus setenta anos continuava a sair a rua nos seus sete centímetros de salto que em tempos já haviam sido dez, fosse à pastelaria ou ao supermercado do bairro. Tinha um gosto especial nessa pisada firme e consignada feminina pelos passeios.

As amigas e vizinhas elogiavam-lhe a postura e a juventude de não precisar de usar os sapatos largos, moles e de cunha que se vendem na farmácia. Ela não gostava de cunhas desde que se lembra de na juventude ter treinado equilibrar-se pelos corredores da casa e a partir de então mostrar-se adulta a caminhar pelas ruas em passadas estudadas de costas empertigadas como os modelos nas passarelas. Nesses tempos as senhoras distinguiam-se pelos saltos altos em contraponto às chinelas das varinas ou das mulheres acabadinhas de chegar da província tanto mais que na época o pé descalço era proibido e até pagava multa nas cidades.

Dera o seu primeiro beijo nuns saltos agulha e pouco teve de esticar o pescoço. Casara nuns sapatos de cetim branco de doze centímetros que nem uma vez prenderam o rabão de renda branca do vestido. E não era agora que ia abdicar desse seu traço distintivo em favor de umas cunhas que qualquer uma calça sem esforço nenhum, avançando em passadas largas como se o dinamismo fosse melhor que o vagarzinho do passinho a passinho tão feminino.

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