Colete de forças


Essa mania do que esperam de nós é uma peça que desencaixei e nunca mais consegui voltar a pô-la no lugar. Então com ele era um ver se te avias de vezes em que lhe saltava a tampa por considerar o meu vestuário desadequado para a ocasião. Fiscalizava-me de alto a baixo e vetava ora porque me tornava muito saliente ora porque os outros haviam de olhar e de dizer ora porque não era modesta como mandam as conveniências.

Ser calaceira facilita a vida e navegar camuflada de cliché em cliché é a sorte grande para agradar às inseguranças masculinas que não querem acicatar a cobiça alheia para a sua companhia feminina nem muito menos querem ser a sombra de quem devia ser apenas a gipsófila do seu garboso ramo.

O azarito era não me moldar a ser lei ou diploma à mercê dos seus dotes autoritários e continuar a vestir-me de cetim e ganga ou seda e chita, com o detalhe de um sorriso irónico na lapela, quer fosse para o café da esquina ou para o jantar de empresa, obedecendo apenas às mudanças climáticas.

E acumuladas tantas linhas penduradas que até na prova de cama já funcionávamos como um lençol de noivado com orifício central debruado a crochet assentámos em retirar o colete de forças até que a morte nos unisse.

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