Um tostãozinho pró dia 13

dia13

A 13 de Junho de 1231 morreu Fernando de Bulhões, o Santo António que dá a Lisboa o feriado, a lenda de que quebrava as bilhas às moças para depois as consertar e dotes casamenteiros que o Diário Popular instituiu em 1958, embora nesses dias do século passado fosse exigida para o efeito uma virgindade provada clinicamente.

Já a mesma data trará o nascimento de Fernando Pessoa (1888) e a morte de António Variações (1984), Al Berto (1997), Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade(2005).

E passados que estão dez anos da morte de Al Berto lembrados na Casa Fernando Pessoa, recordo aqui uma parte do seu "Canto do amigo morto":

Eu:
-Quero morrer perto de ti, de nada me servirá morrer inocente.
Tu:
- Aqui, nesta treva, o que é que parou no tempo? As nossas vidas? A paisagem ? O mar? Do qual nunca soubemos a idade...
Eu:
- Quando sentia o teu corpo contra o meu ouvia, lá fora, a fúria do mar. Era um presságio de felicidade, mesmo sabendo que só o mar das outras terras é que é belo.
Tu:
- Continuas a escrever demais, matas tudo com as palavras. Olha como eu te olho. Olha para mim e cala-te. Devias encher a caneta com tinta envenenada.
Eu:
- O último deserto que me resta de ti é a noite da escrita. Nela te mantenho vivo, amante morto. Já não possuo bens e não prevejo herança nenhuma. Vivo para a travessia do corpo que me sepultou na memória... o teu.
Tu:
- Aquele que se prepara para morrer tem que povoar a alma com tudo o que vai abandonar. Não chegues aqui de coração vazio. É insuportável estar morto, sem nada que nos habite. A morte não admite distracções; por isso, a maior parte das pessoas não sabe morrer, desfaz-se.
Eu:
- Não tenho vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.

(Al Berto, O Anjo Mudo, Assírio & Alvim, 2001, 2ª edição)

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