Espiral

(Foto © Alexandre Serra, 2006)


As livrarias com bar são a mais sedutora invenção desde Gutemberg e assim como quem não quer a coisa levei-o lá em ar de passeio a ver as últimas novidades em livros. Mentiria se não referisse que o tempo ensolarado que permite saias leves e dadas a mexer ao sabor da brisa me adubam a inspiração.

Penetrámos no corredor de entrada e estuguei o passo sempre à sua frente para garantir que ele tinha a oportunidade de me ver os contornos das pernas sem se sentir observado nisso. Estrategicamente deixei cair sem estrondo a malita que me balouçava nas mãos enquanto ele reparava nas estantes laterais para no seu passo seguinte milagrosamente embater nos meus glúteos empinados que apanhavam a bolsa e instintivamente, metesse as mãos no obstáculo. Ele esvaiu-se em desculpas que estanquei com uma gargalhada a conferir que as suas mãos não estavam magoadas nem cravadas de espinhos e sem as largar, arrastei-o para as tartes e salgadinhos.

Sentados frente a frente e munidos de sumo espremido de laranjas para dar azo a conversa sobre o que é natural como a sede e arfando o peito ao compasso do seu discurso e à altura da sua visão, esperei que os joelhos se tocassem, os seus olhos marinheiros procurassem nos meus o certificado de deslumbramento e as suas mãos escorregassem nas minhas para debruçar o meu seio esquerdo no seu braço nú e sussurrar-lhe por entre a sucção do lóbulo da orelha que queria passar já para aquela parte do conto em que segurava na Mont Blanc e ouvia os seus gemidos.




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