Memória salivada

Se José Gomes Ferreira (Porto/09.07/1900 - Lisboa/08.02.1985) estivesse vivo teria completado ontem 107 anos. Mas como ele afirmou, viver sempre também cansa e embarcou nas aventuras de José Sem Medo em 1985. Fica-nos a sua memória das palavras no irreal quotidiano.

(O soneto que só errado ficou certo)

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva

(Poesia IV , 1970)

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