No 52 já não mora ninguém

(em resposta a um desafio do TóZé aka Finurias)

Uma sexagenária habitante de Alfama, no nº 52 da Rua da Regueira, foi ontem roubada e violada por um indivíduo que de acordo com a Polícia Judiciária se pôs em fuga após ter perpetrado os crimes.

(Foto © Vítor Faneca)

De acordo com testemunhas oculares, estava a D. Lucinda à sua porta a limpar a gaiola do canário que lhe alegra os dias e apareceu-lhe um homem bem posto, uma estampa de homem mesmo, a dizer que precisava de verificar as ligações do gás natural e com umas falas tão meigas que até lhe elogiou os cabelos todos branquinhos que está bom de ver, menina, ela o deixou entrar sem alarido nenhum.

O sujeito era um finório e mal se viu lá dentro pôs-lhe as mãozinhas no ombros, apertou como tenazes e perguntou o lugar do dinheiro como se os poucos mais de 200 euros que ela recebe de reforma dessem para arrecadar em algum lugar. Aquele malandro, que não tem outro nome, irritou-se e sacou-lhe o lenço que lhe cobria os ombros e amordaçou-a e ainda a empurrou contra a mesa que ela tinha no meio da saleta sempre com uma jarrinha de flores e depois, desatou a abrir portas e gavetas num alvoroço que se devia ouvir no fundo da rua. Mas bem vê a menina que ali somos só velhotas sem ninguém e sem forças para fazer fosse o que fosse.

Danado que estava atirou-se a ela e rasgou-lhe a blusa e a saia à custa de muito murraça, daquelas que ecoam prédio acima e, grande sacana, pôs-se nela à força que era coisa que ela já não julgaria possível desde que o seu falecido tinha ido, vai para mais de dez anos. E depois aquela coisa horrível que não vi, mas ó menina, ouvi os polícias que aqui estavam dizerem que ela morrera asfixiada que aquele canalha, não satisfeito, meteu-lhe o coiso ainda a pingar pelas goelas adentro e ela nem forças teve para o morder todo e arrancar-lho em pedaços que era o que ele merecia e ficou-se ali como um passarinho.

Agora o senhorio é muita gente que está em partilhas e depois querem vender isto por andares e no 52 que era só o rés-do-chão dela, já não mora ninguém.

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