Podre de boa


Apesar do caldo verde e das sardinhas o vinho não acamava e começou a soltar os desejos entranhados naquele grupo mais acostumado a papéis e conversas conformes com a sociabilidade inócua e formal da empresa. Abrindo repetidamente os queixos de espanto ele definiu-a como podre de boa, saboreando demoradamente cada vogal enquanto a pronunciava.

Tanto os homens como as mulheres daquela mesa se viraram para o canto do balcão de serviço onde ela estava à espera da sua dose. As pernas altas sem deformações desportivas nos músculos ou varizes inestéticas. A cinturinha de vespa. As mamas espaçosas tão apelativas como uma cama elástica. E a boca de lábios carnudinhos e sempre entreabertos a convidar a uma visita ao templo do céu da boca.

Uma das convivas, em pura provocação estranhou que tão atraente rapariga estivesse podre, a não ser que fosse uma alusão velada ao excesso de uso e logo o coro masculino jurou a pés juntos que era material de primeira apanha para qualquer deles iniciar nos mistérios da vida. O coro feminino replicou em gargalhadas um fia-te na virgem e não corras.

Foi então que um deles se declarou adepto do desporto masculino de andar aos caixotes e defendeu a atitude como sinal de modernidade. Para quê desperdiçar uma oportunidade destinando-a ao lixo comum se cada um de nós pode ser um ecoponto para reciclagem?

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