Precipitação


Não sei se por causa da recruta em que se fartaram de encher, se por via do futebol se acostumarem a toques continuados na bola ou se mesmo pelo movimento repetitivo do pénis durante o coito mas parece-me que a maioria dos homens segue a estratégia da insistência no cerco à presa.

Aquele em particular abarratova-me com telefonemas, atestava-me de sms, empaturrava-me de emails e comedia-se nas aparições ao vivo como se eu fosse uma casa escolhida por catálogo que necessitasse de mediação imobiliária. O meu apego aos provérbios mantinha o clima de eu lhe responder na mesma moeda de acordo com as possibilidades e ele continuava embora o começasse a inquietar tanto tempo em que nem o pai morre nem a gente almoça.

Até que num dia ventoso, cinzento e horrível como numa tragédia queirosiana apareceu-me ao intercomunicador da porta a teimar em transportar-me para um qualquer lugar. Recebeu-me sentado, uma mão no volante e outra pronta para me tocar o joelho que ele tinha decidido que aquele era o dia. Apenas perguntei o porquê e ele justificou com o tempo há que já nos conhecíamos para dar um passo em frente na amizade. Ironizei que talvez fosse mais uma mãozinha e que a meu ver faltava uma coisita, quiçá sem a menor importância, como perguntar-me se eu estava disponível para o efeito.


(Foto © Maria Flores, 2007, Rainbow warriors)

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