Cocaína


Os empregados do Solar cumprimentaram-nos com um aceno de cabeça cúmplice como as mãos dadas com que penetrámos no espaço para o ritual de mais uma prova de aloirados na qualidade de membros resignados dos vivos anónimos a viver um dia de cada vez.

Era a estação de consumo obrigatório sempre que não dispúnhamos do tempo conveniente para molhar o pincel e era um fartar de sorrisos maliciosos, de nos sugarmos mutuamente pela boca, de crispações de dedos na carne do outro em invólucro de tecidos mais uma avalanche de piadas à laia de escudo gaulês para que o horrível não nos tombasse em cima das cabeças.

Entre saúdes em cada novo cálice esmagámos repetidamente os narizes no pescoço do outro a entregar uma profusão de beijos demorados enquanto se inalava o cheiro do objecto de desejo feito linha de coca.

As convenções conseguiram amarrar-nos aos respectivos e criamos a dependência da fuga para nos ajudar a passar pela vida, seja lá o que ela o que fôr.

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