Paredes modernas


Moro num prédio de viúvas, divorciadas e solteiras. Apenas um solteirão renitente contraria a arquitectura deste matriarcado.

Mal as poucas crianças se deitam perpassa pelas paredes apenas o silêncio que fornece bom eco à aceleração dos carros pela avenida e desde há algum tempo habituei-me a adormecer com as galinhas como diria a minha avó, após um empenhado zapping por coisa nenhuma até as pálpebras piscarem ao ritmo do monitor da televisão.

Tenho saudades de quando adormecia tarde embrenhada num filme encaixado no dvd ou ávida da última folha de um livro mas a solução actual ajuda-me a manter as boas relações de vizinhança. A inveja não me tira nem aumenta o sono mas sobram-me as saudades do tempo sossegado em que a minha vizinha de baixo apenas usava vibrador. É que estar acordada na nossa caminha quando debaixo dela resfolegam, arfam, gritam, urram que até as paredes se contorcem e as vibrações batem directamente no nosso colchão é uma violência para a qual a única sublimação possível é a inércia de pedra nos braços de Morfeu.


(imagem gentilmente enviada por ACC)

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