Públicas virtudes


Entre o arrazoado de obrigações que cimentava a sua vida ele dava-me a esmola de ter uns minutinhos comigo como julgo que nos idos da passagem do século XIX ao XX impunham os amos às criadas de dentro.

Era a hora da loira em que na frescura do momento se despia do homem que era e me apalpava as carnes a toda a brida até os olhitos lhe quererem saltar das órbitas. E dava despacho a todas as frases triviais que supunha adequadas à ocasião como amo-te e tal e coisa. Depois compunha-se, ajeitava a fralda da camisa, penteava-se a preceito e retirava da sua imagem qualquer laivo de emoção que um homem não chora nem mostra os seus sentimentos e continuava o dia imperturbável no milimétrico cumprimento do que se esperava dele.

Enfurecia-se quando eu lhe interrompia o traçado com um telefonema ou uma aparição não escalada para lhe dar um sorriso ou um aperto de mão nas partes porque tais intimidades banais despedaçavam o estatuto de putas que ele conferia a todas as mulheres salvo a sua santíssima mãe. Como seria possível antecipar, começou a latejar em mim o Não posso mais do Abrunhosa e tive de lhe dizer que, sem garantias nenhumas, talvez fosse melhor ele enveredar por uma Second Life.


(imagem gentilmente enviada por email)

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