Embaciada


Ali estava ela afastada de tudo e embaciada como a vidraça cheia de gotas de chuva. As madeixas a descerem pelo cabelo e longe de tudo o que conhecera, confinada ao favor de um quartinho. Sem licença para pôr o nariz na rua e apartada de qualquer contacto social que não os das mulheres que como ela ali permaneciam.

Não morrera da pancada que a autoridade macha dele lhe impusera assim como quem marca o gado a ferro quente ou com um piercing na orelha que vem a dar na mesmíssima coisa. Foram muitos olhos ensaguentados e nódoas negras escondidas em calças, mangas compridas e golas altas. Mas a mágoa ainda borbulhava fundo no inaudito e ainda espantoso facto de quem está mais próximo e de quem se esperava ternura ser o agressor como se o mundo funcionasse ao contrário e ela não o tivesse compreendido. A sua ignorância limitava-a à prisão do medo que ele livre como um passarinho continuava a sua vidinha com todos os pertences excepto ela.

Recordar não é viver quando é reviver a carne açoitada e os miolos curto-circuitados e apenas se lembrara disto tudo porque na recepção do albergue de mulheres vira nas gordas de um jornal que se comemorava o Dia do Animal.

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