Fábula das cerejas


Esta esbelta figura que exibo é o resultado directo da atitude saudável de usar o Metro de Lisboa que gratuitamente nos ginastica as pernas porque os elevadores nunca funcionam e as escadas rolantes são desligadas amiúde e sempre nos eriçamos de felicidade pelo lado de colírio oftalmológico.

Dos sapatos pretos de boneca com saltinho cresciam umas pernas bem torneadas visíveis até às coxas por via de uma mini-saia amarela a embaloar-lhe o cuzinho encimada por uma sedosa blusa preta que justificava uma acertada conjugação de cores da parte da moça. E sob o cabelo preto cortado à garçonne despontavam duas cerejinhas, vermelhinhas e lustrosas, desenhadas no centro do pescoço que me fizeram crer piamente serem apenas uma amostra das que ela teria certamente a pender dos mamilos e a decorar o fundo das costas antes do meridiano das duas nádegas também redondas como as cerejas.

Como até me chamo Canário acerquei-me dela a dar conta do facto de que cerejas assim frescas pela manhã me abriam o apetite. Mas ela deu-me uma bicada com o à vontade de quem está acostumada a espantar pardais ao perguntar-me se estava abonado para ir ao dentista tratar de seguida os dentes partidos. E imediatamente me convenci que as cerejas estavam verdes e sem sentido de humor.


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