Recta da saudade

(Foto © Anthony Donner)

Guardei todas as suas sms numa pasta do computador como quem preserva cartas numa caixa bonita ou no fundo de uma gaveta de roupa íntima. Arrecadei as conversas do msn noutra pasta e lembrei-me da minha mãe que anos a fio conservou os aerogramas que meu pai lhe enviou de Angola.

De quando em quando abria uma das pastas e com olhos melancólicos de quem assiste a um filme daqueles de ir às lágrimas relia. E porém, continuava a faltar-me o cheiro de pinheiro e maresia que lhe emanava do queixo depois de se escanhoar. Permaneciam as saudades da fragância acre que dele se desprendia quando fincava as minhas pernas nos seus rins e a minha boca pardalitava pelo seu pescoço, à direita e à esquerda, entre mordiscos nas orelhas. Faltava-me a sua carne cravada em mim a inchar como se eu fosse uma botija de gás e a alagar-me depois em soluços tal como os balões soltam o ar dentro de si num imenso pfftttttpffffttttttpfffffttttttt.

Já nem quero saber do dinheiro a mais que entra este ano e que não conseguiríamos de outra maneira, nem quero rever as imagens do enforcamento de Saddam e estou-me positivamente a cagar para o facto de lá ter nascido a escrita cuneiforme ou a arca de óvulos de Gilgamesh que a minha guerra não é esta como Angola não foi da minha mãe. Só combato com o tempo para encurtar a recta que vai da minha pele à sua.




A guerra é a guerra, Fausto

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