Sanguinário

(Foto © Silvia Abascal, 2006)

Sempre que via sangue desmaiava ou na melhor das hipóteses ficava com a cabeça a andar à roda numa velocidade danada. Má sorte ter nascido mulher.

Era certo e sabido que nesses dias do mês não ia trabalhar. Ainda tentara a estratégia do reforço duplo com um tampão e um penso higiénico para não ter de desfalecer na casa de banho do emprego e só chegar atrasada por mor do desmaio matinal após essa operação que lhe ensanguentava os dedos mas eram muitas horas e não havia absorvente que lhe chegasse. Mais a mais que ainda havia o risco de o sangue aparecer alegremente nas calças ou na saia como quem diz estou aqui e mostro-me ao mundo como o Brise contínuo.

Também não lhe parecia lícito pedir a uma colega que a acompanhasse à casa de banho para ela poder fechar os olhos e sujeitar essa alma caridosa ao cheiro de peixe em decomposição de um mercado. Nem lhe parecia que alguém aceitasse ser contratado para tal fim.

Nem os anos de experiência lhe faziam passar a moléstia por costume e tradição e sem outra alternativa que se lixassem as contra-indicações que estava quase decidida a tomar a pílula em todos os restantes dias da sua vida sem falhar nenhum até que a menopausa as separe.




E o Alcaide não resistiu a acrescentar que:

Não tenho que temer a sanguinária,
nos dias que liberta a vida e o medo
que é natura e não traz imaginária,
nem ficamos sem beijo e sem um credo.
Incómoda, rabeca e ordinária,
repenso mais carinho, ao amor cedo.
P´ra não haver nos dias mais barulho,
nunca vamos comer um sarrabulho...

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