Acelerar no novo ano


Como a maioria de nós ele tinha uma licença de porte de arma passada pela Direcção Geral de Viação e insistiu em ser o motorista de ambos os casais para a festa de final de ano. Cabia-me o lugar do morto e entre travagens e acelerações apimentadas com curvas apertadinhas invejei os Tena Lady da minha avó que não colocariam o meu fino vestido acetinado em risco. Valia-nos a chauffage para ter algum conforto que se encontro o estilista que lançou a moda de as senhoras se vestirem como papel de bombons para o réveillon embrulho-o em papel celofane e coloco-o no ponto mais alto da Serra da Estrela.

E como se não bastasse o frio do caraças que rapámos à saída do veículo encontrámos uma sala cheia de rostos frios para aprendermos a não chegar antes do aquecimento dos corpos por diversas produções vinícolas e algumas contorções dos músculos embaladas na música para activar a circulação sanguínea.

Está bom de ver que depois das doze badaladas e doze passas e todos aqueles rituais de subir a cadeiras e dar gritinhos e fazer das esguias taças de champanhe carrinhos de choque e chupar beijos como se de um fôlego se absorvesse o ano inteiro e doravante pudéssemos controlar as nossas vidinhas por todos os poros, ele era mais uma passa mirradita encharcada em vapores etílicos e pronta a ressonar em vale de lençóis. Mesmo sem dotes de cartomancia ou astrologia para me socorrer consegui prever que neste novo ano as suas artes de condução na estrada se equivaliam na cama.


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