O veado



Depois a inesperada revelação , que guardei para mim mas me doeu como estocada de fim (ou adiamento ou pequena vitória provisória): na Barros Queiroz, à porta do Tábuas, aparece-me um grande veado morto, pingando sangue no passeio, preso pelas patas, a cornadura quase roçando o chão. Ficava gente parada a ver. Ficámos os dois. O que ela pensou então nunca o saberei nem lho perguntaria. Eu vi tudo. Vi-me ali. Percebi o que nos acontecia, a nós, a todos em especial. Creio ser este o dom do Artista criador: num pormenor rápido, abarcar toda uma situação pessoal e, logo, simbólica, extrapolável à condição humana. Que era aquele veado ali pendurado, morto há pouco (diríamos: crucificado de fresco), esfarinhando sangue já sem um queixume ou a consciência de ser carne de açougue, a prometer publicitar ceias de ricaços para o dia de Natal diante de nós, senão um espelho? (...) Aquele bicho macho, cornudo, imponente ainda no espectáculo da sua derrota final fatal, com uns restos de sangue, memória da sua antiga força, repasto de assados e bifalhadas inda moldado na sua bela forma natural - que éramos senão nós todos no desejo de ter querido ser assim, livres e altivos, numa floresta longínqua como os sonhos ou histórias espantosas da nossa infância? Não era eu ele? Não era a Irene, também, cabra douda pulando nas matas e barrancos da Macieira e arrastada para longe, por artimanhas dum astuto caçador (eu), longe do prazer da vida que lhe dera o rapaz (esqueci-me do nome, Fernando parece), com um filho na barriga e uma calada vergonha a torcer-lhe quebrar-lhe o riso outrora tão espontâneo, infantil? E depois vi mais. A luta da vida e morte que levamos uns junto dos outros contra os outros, vencendo o mais sabido melhor armado. Carcereiros uns dos outros. Sem às vezes darmos por isso, incapazes na altura de o percebermos, o evitarmos. Tudo na noite em que se festeja o Redentor.

Excerto de 25/10/ 74 de Luiz Pacheco, Diário Remendado, Lisboa: D. Quixote, 2005

0 comentários: