ABC das palavras ou AEIOU do léxico pessoal



Numa passadeira roxa, a Vanus lançou-me no último domingo o desafio de destacar uma dúzia de palavras que mais utilizo ou que reputo mais significantes e vai daí, entre as milhentas possíveis, escolhi estas porque estavam mesmo ali a olhar para mim e a levantar a mão como se dissessem leva-me a mim.

1 – mas - porque há sempre um porém, um contra-argumento e o contrário ou antónimo de cada coisa e não podia cá faltar por ser estatisticamente a palavra que mais uso quer na fase oral quer na fase digital;

2 -A - atarrachar e alinhavar – porque a primeira me dá mesmo a ideia do ranger das meias laranjas a serem comprimidas à mão nos velhinhos espremedores manuais e a segunda a impressão da lascívia que nos entra devagarinho na pele a marcá-la com a leveza da sua efemeridade;

3 - B – blasfémia – porque soa mesmo a bofetada e à irritação que decorre do seu significado como se fosse uma onomatopeia das que abundam na banda desenhada;

4 – C – cardápio - porque sugere um acesso rápido ao prazer do paladar com energia pronunciada no acento;

5 – A – aleivosia e arqueologia – porque o primeiro termo me dá a imediata sensação da viscosidade do boato e da mentira e o seguinte ecoa como arco lógico da procura ou a busca redonda do sentido das coisas;

6 – E – eriçar – pela carga erótica da palavra que de uma assentada parece erguer o ânimo enquanto a cedilha faz deslizar languidamente;

7 - I - igualdade – porque a sua sonoridade parece o um-do-li-tá da distribuição equitativa e simbolicamente defende que uns não sejam mais iguais que outros;

8 – O – óbice – porque me lembra um tampão, convenientemente da marca O.B., cuja razão da sua existência é mesmo travar qualquer coisa;

9 – U – urinol - porque por mais que me expliquem o contrário é para mim uma palavra que resulta da junção de urinar com lol, tanto mais que esses equipamentos de urinar contra a parede de pé e de uso exclusivo do sexo masculino sempre me pareceram obra de um humorista, sobretudo nos tempos em deixavam ver os pés dos utilizadores;

10 e 11 - tudo e nada - porque não suporto meias tintas e estas duas palavrinhas pequenas com um ou a ligá-las dão-me a medida da diferença entre a paixão e a indiferença;

12- foda-se – porque é segunda palavra que mais uso, algumas vezes apenas no silêncio da minha cabeça, para virgular as minhas frases, servir de ponto de exclamação, despejar os aborrecimentos diários ou atear-me o ânimo e como só metade de mim é do Porto, não podia usar carago!

E como não sou adepta de bondage, não acorrento ninguém e deixo todos livres para optarem se aceitam o desafio ou não.


[imagem gentilmente enviada por Cap]

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